Crônica – Memórias de um Inverno Passado
A saudade de um tempo em que o coração e o corpo se aqueciam em volta dos fogões. Comida, conversas, afeto e um tempo...
Por Omar Dimbarre
O vento gelado daquele inverno da década de 70 chegou rasgando a noite. Uma sinfonia de estalos secos das madeiras ardendo no fogão a lenha irradiava pela cozinha.
No interior de uma grande panela de alumínio, pés de galinha, legumes e macarrão submersos em água ferviam — cebola, alho, tempero verde e um bocadinho de sal para melhorar o sabor. O pai, então, chegava de mais um dia de trabalho. Agasalhado com seu casaco cinza — uma japona rústica de lã felpuda com grandes botões —, sentava-se na cabeceira da mesa.
Pratos e talheres postos, família reunida. Ressoava o tilintar metálico da concha que batia nas bordas da caçarola, enquanto uma serpentina de fumaça subia, emanada pela quentura do alimento. Colher no prato e sopro para esfriar um pouco o caldo fumegante. Palavras trocadas, conselhos e brincadeiras; o pai com seus eternos bordões cômicos, aguardando sempre a mesma resposta preconcebida por ele. Risos e conversas.
Lá fora, o orvalho, descansando mansamente sobre as folhas das plantas e árvores que circundavam nossa morada, cristalizava. Em nosso lar, tal qual um ninho de joão-de-barro, o calor nos envolvia — emanado da lenha que queimava e do afeto que transbordava.
Refeição finalizada e labaredas ainda rugindo: momento de espalhar sobre a chapa de ferro uma porção grande de pinhões. Crestados lentamente e virados rapidamente para não queimarem, com as pontas dos dedos ou com uma faca. Martelo batendo sobre as sementes quentes da araucária. Golpe certeiro, casca rompida, iguaria ejetada. Uma respirada mais forte sobre o manjar rústico de inverno e tudo pronto para saboreá-lo.
TV ligada, suspensa ao lado da geladeira. A mãe, sentada em sua habitual cadeira, novelo de lã ao lado e agulhas postas nas mãos. Uma laçada por trás, uma laçada pela frente e uma cruzada — bola desenrolando, arte brotando.
O pai logo ia descansar, pois o trabalho lhe chamaria cedo. Um beijo no rosto:
— A benção, pai!
— Deus te abençoe, meu filho!
Ficávamos mais um tempo, enquanto o calor ainda inundava o recinto. Sempre havia alguém da vizinhança — eram tão presentes que já faziam parte da família. Causos do passado afloravam. A mãe adorava lembrar de sua juventude, dos bailes, das estripulias que rolavam entre seus colegas de trabalho no Frigorífico Pagnoncelli. Ouvíamos os mesmos relatos várias vezes, como se fosse sempre a primeira vez. Com olhar curioso, como se jamais tivéssemos ouvido, acompanhávamos suas risadas.
Hora de ir deitar. Um beijo no rosto:
— A benção, mãe!
— Deus te abençoe, meu filho!
E mais um sábado nascia. Uma neblina densa envolvia todo o Vale — o Rio do Peixe desaparecia coberto por um véu branco. A mãe já estava acesa — o aroma do café feito na hora se espalhava pela casa. O pai partia encasacado para a labuta. Ao lado da porta, um litro de leite fresquinho deixado pelo leiteiro, que amanhecia antes de todos na cidade. A geada branquinha cobria os telhados, a terra e as plantas.
Chiado do leite esquentando — a mãe em alerta ao lado da panela. Espuma subindo — a fervura era contida. Pão caseiro posto na mesa. Chimia de abóbora — a minha preferida. Roupas quentes; uma blusa tecida pelas mãos habilidosas da minha mãe aconchegava o corpo. Eu estava pronto para encarar mais um dia de frio.
Chegava, então, o instante de preparar o chimarrão. Erva-mate preenchendo parte da cuia, mão tampando-a e inclinando-a, sacudindo levemente para tombar o pó verde de um só lado, e um pouco de água fria no espaço vazio para hidratar. Bomba introduzida com precisão e água quente para completar.
A primeira vizinha entrava — encarangada e coberta de roupas quentes. Logo em seguida mais uma e mais uma, até completar o círculo. Um ritual quase sagrado, que só não se repetia aos domingos, iniciava: uma roda de chimarrão ao lado do fogão, regada a muita prosa, risadas e recordações compartilhadas.
Um grande relógio de parede, que ornamentava a sala, repicava compassadamente dez badaladas. Aos poucos o encontro ia se desfazendo: o almoço precisava ser preparado.
Panelas no fogo. Galinha, alho, cebola, sal e tomate cozinhando — o molho encorpando lentamente. Farinha de milho borbulhando em outro recipiente, colher de pau mexendo até a mistura engrossar.
Hora do almoço. Pratos postos, família reunida à mesa. Conversas, histórias, relatos do cotidiano. Polenta com galinha servida. Alegria, afeto e muito calor humano para aquecer o corpo e alma.
À tarde, o pai rodava alguns de seus discos de orquestra na vitrola. Sentava-se no sofá da sala e, assobiando, acompanhava a canção. Quando estava inspirado, envolvia a gaitinha de boca com os lábios e, deslizando-a suavemente com as mãos, transfigurava-se em um músico ocasional.
Em meio às notas musicais que se propagavam por nossos aposentos, subitamente ecoava o som de um veículo parando em frente de nossa casa — Kombi, caminhonete antiga, caminhãozinho ou Brasília. Chegava do interior carregado de bergamotas, laranjas, queijos e salames coloniais: uma feira ambulante que vinha até o freguês. Aos poucos, a vizinhança se aproximava e saía dali com a despensa abastecida. Enchíamos a sacola, e o perfume cítrico exalado enquanto as cascas das frutas eram retiradas com os dedos aromatizava o ambiente.
O sol caía novamente no horizonte — momento de se recolher. Sobras da polenta do meio-dia, cortadas em fatias e postas para assar na chapa, com queijo esparramado por cima até derreter. Jantar pronto e servido. Tricô, TV e alguns causos para fechar o dia.
O sono nos chamava:
— A bênção, pai!
— Deus te abençoe, meu filho!
— A bênção, mãe!
— Deus te abençoe, meu filho!
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